Saturday, 12 September 2026
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Cidade selvagem, fauna urbana

Cidade selvagem, fauna urbana

Notícias Caminhos da Reportagem 07/09/2026 – 23:30

À primeira vista, a maior metrópole da América Latina parece ser habitada por uma única espécie: o ser humano. No entanto, sob o asfalto e acima dos prédios, a capital paulista abriga vida silvestre, que se adapta e resiste aos impactos da expansão urbana. 

A ocupação da capital transformou a paisagem, mas os registros históricos e os nomes próprios de alguns lugares mantêm viva a memória da fauna nativa. De acordo com o ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP (MZUSP), a região era marcada por uma transição geográfica singular:  “Tinha essa mescla de Mata Atlântica com campos naturais, tanto que a cidade, antes de chamar São Paulo, se chamava São Paulo dos Campos de Piratininga.”

Os povos originários davam nomes para as áreas usando os animais como referência: M’Boi Mirim significa cobra pequena (como a Dormideira, Dipsas mikanii); o Rio Tamanduateí rememora o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla); o Tatuapé, o caminho do tatu (Dasypus novemcinctus).  Essa relação ancestral com a fauna é preservada na Terra Indígena Jaraguá, onde 45 famílias Guarani mantêm relação sustentável com o território e forte vínculo espiritual com os animais. Liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, Márcio Mendonça Boggarim, ou Guarani Karaí Werá Mirim, em tupi-guarani, destaca a relevância das abelhas nativas sem ferrão para a cultura local:  “Todos os animais, para nós Guarani, são considerados sagrados. O Guarani se fortalece mentalmente através dessas espécies nativas, principalmente a Jataí [Melipona rufiventris]. A gente utiliza a cera, o própolis e o mel para fazer batismo e curar pessoas doentes”.  

Há 12 anos, Márcio Mendonça Boggarim, liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, cuida de abelhas sem ferrão. - Reprodução/TV Brasil


Há 12 anos, Márcio Mendonça Boggarim, liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, cuida de abelhas sem ferrão. – Reprodução/TV Brasil

 

A degradação histórica das matas também motivou iniciativas privadas de restauração. No extremo sul da cidade, dentro da APA Capivari-Monos, Jayme Roso reconstruiu, na década de 1960, uma área desmatada, originando a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu. “Quando eu cheguei aqui não tinha nada. Acredito que tenha plantado umas 650.000 mudas”, afirma. Sua filha e gestora da reserva, Ana Roso, explica que esse trabalho é feito hoje pelos próprios animais: “Meu pai reflorestou no passado, mas depois a anta [Tapirus terrestris] fez o trabalho dela: ela come frutos maiores e vai dispersando as sementes, ajudando a reflorestar”.  

Antas (Tapirus terrestris) ajudam a reflorestar a RPPN Sítio Curucutu. - Câmeras Trap/RPPN Sítio Curucutu.


Antas (Tapirus terrestris) ajudam a reflorestar a RPPN Sítio Curucutu. – Câmeras Trap/RPPN Sítio Curucutu.

 

De acordo com o Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo, o município conta com 1.475 espécies de animais catalogadas, das quais 223 estão ameaçadas de extinção. Para socorrer a fauna vitimada pelo tráfico e por atropelamentos, choques elétricos e linhas de pipa com cerol, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas) opera em duas unidades: uma no Parque do Ibirapuera e outra no Refúgio de Vida Silvestre Anhanguera.  O médico veterinário Felipe Lucato aponta a dimensão do trabalho realizado pela instituição:  “O número anual de animais que a gente recebe é em torno de 13.000. Na alta temporada, chegamos a receber até 2.000 animais por mês”. Contudo, nem todos os espécimes conseguem retornar ao seu habitat natural. O manejo humano inadequado e as sequelas do tráfico ilegal impedem a soltura. 

Raoni, onça-parda (Puma concolor) resgatada no interior de São Paulo, que está há seis anos no Cemacas. - Reprodução/TV Brasil


​​​​​​​Raoni, onça-parda (Puma concolor) resgatada no interior de São Paulo, que está há seis anos no Cemacas. – Reprodução/TV Brasil

 

A preservação da fauna também ganha força com a participação ativa da sociedade por meio da ciência cidadã. A fotógrafa e educadora Paula Romano transforma registros de insetos em dados para pesquisadores na plataforma iNaturalist. Com mais de 24 mil postagens, ela já auxiliou na descrição de espécies e no mapeamento de animais ameaçados de extinção.  “Felizmente, agora a gente tem visto muitos pesquisadores usando esse material. A minha autoestima é lapidada a partir disso”, enfatiza.  

Besouro (Neoregostoma coccineum) identificado a partir de registro publicado pela fotógrafa Paula Romano na plataforma Inaturalist. - Foto/Paula Romano


Besouro (Neoregostoma coccineum) identificado a partir de registro publicado pela fotógrafa Paula Romano na plataforma Inaturalist. – Foto: Paula Romano

A observação atenta do ambiente urbano pode, ainda, converter cenas comuns em grandes manifestações artísticas. Ao registrar pássaros pousados em fios elétricos na cidade de Santana do Livramento (RS), o repórter fotográfico Paulo Pinto capturou uma imagem que chamou a atenção do diretor de arte e músico Jarbas Agnelli. “Cinco fios é o mesmo número de linhas numa partitura. Fui pro piano e interpretei aquilo”, explica. A composição e o vídeo resultantes alcançaram milhões de visualizações.

Os chupins (Molothrus bonariensis) de Santana do Paranaíba, fotografados por Paulo Pinto, viraram sinfonia feita pelo músico Jarbas Agnelli. - Foto/Paulo Pinto


Os chupins (Molothrus bonariensis) de Santana do Paranaíba, fotografados por Paulo Pinto, viraram sinfonia feita pelo músico Jarbas Agnelli. – Foto/Paulo Pinto – Foto: Paulo Pinto

Quinze anos depois, Jarbas e Paulo voltaram para Santana do Livramento para fazer uma nova sinfonia. O projeto, que ficou conhecido como Sinfonia da Energia e contou com outras sessenta fotografias, vindas de diversos lugares do mundo, foi feito em parceria com a Agência África Creative e com a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Neste ano, a campanha conquistou o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes. “Qual não foi nossa surpresa que os pássaros já não estavam mais lá, porque o dono da casa que alimentava os passarinhos já tinha ido embora também. E a mãe que indicou também já não estava mais aqui. Então, isso tudo, que que ficou de lição? Que nós temos que aproveitar o momento”, finaliza Paulo.

O episódio “Cidade Selvagem, Fauna Urbana”, do Caminhos da Reportagem, vai ao nesta segunda (07/09), excepcionalmente às 23h30, na TV Brasil.

Ficha técnica

Produção e reportagem: Thiago Padovan
Apoio à produção: Acácio Barros
Reportagem cinematográfica: JM Barboza
Auxílio técnico: Maurício Aurélio Marcelo e Rafael Carvalho
Colaboração técnica: Jone Ferreira e Wladimir Ortega
Apoio à imagem: Yuri Ledesma
Edição de texto: Thiago Padovan
Edição e finalização de imagem: Rodrigo Botosso
Assessoria: Cilene Frias

03/09/2026 – 18:40

Tags: 
Cidade selvagem fauna urbana Caminhos da Reportagem

Fonte: TV Brasil — por suzana.alves, publicado em 03/09/2026 19:12.

Conteúdo republicado sob licença CC BY 3.0 BR.

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