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Desastres climáticos trazem graves impactos à saúde mental

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Repórter Brasil Tarde 28/08/2026 – 12:45

Na última reportagem da série sobre o Super El Niño, a gente mostra como as populações atingidas por desastres naturais sentem transtornos emocionais de maneira profunda. E que muitas pessoas necessitam de ajuda para se reerguer.

Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, quem vive às margens do Rio Botas fica especialmente apreensivo nos dias chuvosos. Áurea Lopes, auxiliar de serviços gerais, mora há mais de 50 anos em Caioaba. Na casa, não há quase nada. Não se vê móveis em bom estado. Ela desistiu da mobília depois de perder tudo em enchentes. 

“Não tem mais guarda-roupa, não tem mais sofá… O único sofá que tem ali é um resto que a pessoa deu pra gente sentar à noite. Tem mais nada. Como que se compra se a qualquer momento você pode perder? Dinheiro jogado fora. E aí a gente fica aí, tenso… O que que será da gente? Compra, perde, compra… Gente, então é melhor não comprar mais. Quem dorme? Ninguém dorme. A gente passa a noite acordada, como eu e o meu sobrinho que mora aqui no quintal também”, conta ela. 

Não é o apego à casa, ao local onde viveu a maior parte da vida, que a mantém ali. Áurea não tem para onde ir com os três netos, de quem cuida sozinha depois que a filha morreu.

“Eu vou pra casa da minha cunhada, que mora ali em cima, com meus netos, até a água abaixar para poder vir limpar a casa, para tirar lama, essas coisas, né? Que os bens, essas coisas assim, vai tudo embora. Eles ficam nervosos, ficam tensos, ficam… Já ficam nervosos: ”O rio tá enchendo, o rio tá enchendo! Vó, o rio tá pegando água!”, falam assim mesmo: “O rio tá pegando água, o rio tá pegando água!”. “Calma, daqui a pouco a gente sai daqui”, revive Áurea. 

Além dos problemas mais conhecidos, dos prejuízos econômicos e sociais, as mudanças do clima afetam a saúde mental e podem aumentar ainda mais a necessidade de atendimento e cuidados. Por isso, a Organização Mundial da Saúde recomenda que as políticas para o clima incluam o apoio psicossocial às populações.

O El Niño pode causar nos próximos meses eventos severos, como chuvas intensas no Sul, calor no Sudeste e seca no Norte do país. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) alerta que há risco alto de impacto na saúde mental das populações que vivem nas regiões afetadas. Em situações de eventos climáticos extremos, os grupos vulneráveis estão ainda mais expostos: é o caso das crianças e adolescentes, dos povos indígenas, além daqueles que já vivem com transtornos mentais e grupos sociais que estão em situação de pobreza.

A seca ou as chuvas podem prejudicar quem depende da agricultura, por exemplo. Tornar o acesso a alimentos e água mais difícil, obrigar as pessoas a se deslocarem e dificultar o acesso a serviços públicos essenciais. Tanta incerteza pode causar ansiedade, sofrimento emocional, dificuldade para dormir e agravar problemas psicológicos.

“Vamos ter muitos eventos como esses e eles precisam estar preparados, ter muito autocuidado. Porque, para cuidar dos outros, é preciso cuidar muito da sua própria saúde mental e ter capacitação, né? Que sejam oferecidas capacitações para que eles possam, eh, cuidar efetivamente da saúde mental da população, né? Garantir a integridade física, mas também a saúde emocional”, destaca Vanessa Dordron, do departamento de Psicologia Clínica da Uerj. 

“A casa, ela deveria pelo menos ser um ambiente de segurança para todos, e quando ela deixa de ser, a pessoa desenvolve todos esses sintomas. Então, às vezes, reconstruir a casa num lugar novo ou mesmo tentar voltar pro mesmo local causa esse medo, causa essa insegurança. Então, entender isso como um luto, como processo de luto, de perda,  porque o luto não tá ligado só à morte, ele tá ligado a perdas, né, a fins de ciclos, a recomeços… Então eu acho que é legitimar os sentimentos e as emoções dessa pessoa e entender isso como um luto, como um processo que a pessoa, infelizmente, perdeu ali os seus bens materiais, perdeu fotos, perdeu às vezes até pessoas próximas, parentes… Mas é possível reconstruir. E reconstruir não só os bens materiais, como também a sua saúde mental, todas as suas emoções aos poucos, né? Eu acho que entender que isso também é um processo, não vai ser de um dia pro outro”, acredita a psicóloga Camila Molinari. 

Para quem vive há décadas no mesmo bairro, não é fácil acompanhar as transformações sem ficar preocupado com o futuro. Vicente de Paula Secchi está aqui há mais de 60 anos e disse nunca ter visto uma ventania como a de algumas semanas, com ventos fortes que chegaram a mais de 100 km/h.

“O que tá se vendo hoje em dia é o que a natureza tá mostrando aí, que não tem nada de bom pela frente aí, que não vai ser nada bom, né? Já tá mostrando agora. Isso aí foi fora do comum, isso aí… Se nós não tomarmos atitude, vai ficar difícil de pegar com a mão isso aí, vai ser complicado”, se resigna ele. 

Para Áurea, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos tornam tudo ainda mais incerto. “Não enchia. Vinha até o quintal, mas não enchia. Começou a passar para dentro de casa, entra pelos ralos, entendeu? A água vem pelo ralo do banheiro. Piorou, com certeza piorou. Não enchia”, arremata ela.

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28/08/2026 – 16:00

Tags: 
ansiedade pós-traumática super el niño desastres climáticos moradores áreas de risco

Fonte: TV Brasil — por pollyane.marques, publicado em 28/08/2026 16:15.

Conteúdo republicado sob licença CC BY 3.0 BR.

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