Agendas disputadas, assessores que filtram pedidos, receio de exposição e desconfiança em relação às universidades e às ciências sociais. Essas são algumas das barreiras enfrentadas por quem precisa entrevistar parlamentares, diplomatas, empresários, militares ou integrantes de organizações políticas. Por causa disso, informações relevantes para a sociedade que não aparecem nos registros públicos de instituições como a Câmara e o Senado permanecem nas entrelinhas das relações entre grupos dominantes que concentram prestígio e poder.
Ao estudar elites políticas e sociais, pesquisadores procuram descobrir que atores influenciam as decisões e em que espaços essas articulações ocorrem. “O estudo das elites permite ir além do campo clássico da ciência política institucional e chegar à esfera concreta da decisão”, explica Reginaldo Mattar Nasser, professor do Departamento de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O problema é que quem detém informação e poder costuma também estar entre os que mais se esquivam de responder a pesquisas.
Quando as recusas se acumulam em determinados perfis, a dificuldade pode alterar o retrato produzido pelo levantamento. Por isso, estudar elites exige não só planejar o que perguntar, mas definir as características do entrevistado, saber como conquistar sua confiança e avaliar os limites das respostas obtidas.
Para Adriano Codato, professor de ciência política na Universidade Federal do Paraná (UFPR), esse tipo de entrevista ainda evidencia uma inversão de hierarquia. “Em pesquisas com grupos socialmente vulneráveis, ser ouvido por um cientista social pode representar uma forma de reconhecimento. Já com as elites, é o entrevistado que dispõe de mais poder e prestígio na interação e que decide se concede seu tempo ao pesquisador”, analisa.
No caso de políticos profissionais, acrescenta Codato, o acesso costuma ser controlado por chefes de gabinete e assessores que avaliam os pedidos de acordo com conveniência, interesse e prestígio da instituição solicitante. “E, uma vez iniciada a conversa, surge outro obstáculo. Para administrar sua imagem pública, os entrevistados podem recorrer a respostas ensaiadas ou socialmente desejáveis”, diz. O cientista político observa também que participar de um estudo acadêmico raramente oferece retorno imediato ao parlamentar. “É muito melhor, para ele, atender a um veículo de grande visibilidade do que a um instituto de pesquisa”, comenta.
Esses obstáculos têm sido enfrentados por uma equipe do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem), coordenado por Codato. O projeto “Democracia no espelho: como pensam os deputados e como pensa o povo sobre o regime democrático no Brasil”, que busca comparar o que deputados federais e a população brasileira consideram essencial a uma democracia, reuniu respostas de 170 parlamentares (33,1% da Câmara dos Deputados) e de 1.504 pessoas com 16 anos ou mais. Os dois grupos responderam a questões semelhantes sobre garantias liberais, redução das desigualdades e participação direta dos cidadãos. A aplicação dos questionários ficou a cargo do instituto de pesquisa Ipsos-Ipec.
Para alcançar os deputados, os entrevistadores combinaram agendamentos formais com abordagens em pontos de circulação do Congresso Nacional. A interceptação nos corredores contorna a barreira dos gabinetes e permite que o próprio parlamentar decida se vai participar. A ação foi feita entre terças e quintas-feiras, quando há mais deputados em Brasília. Cada entrevista foi gravada e georreferenciada como forma de controle, já que os registros permitem verificar se o questionário foi de fato aplicado pela pessoa responsável, no local previsto e diretamente ao parlamentar, e não a um assessor.
O desenho da amostra estabeleceu cotas por partido e unidade da Federação, além de controles de sexo e cor ou raça, para reproduzir a composição da Câmara. Cumprir essas metas dificulta o trabalho. Depois das primeiras entrevistas, a equipe precisou localizar perfis específicos para completar a amostra, que, por vezes, continha uma única parlamentar de determinado partido e estado. A contratação de uma empresa especializada profissionalizou a abordagem e tornou possível alcançar os 170 entrevistados.
A forma de aplicação também interfere no que se consegue conhecer. Questionários fechados possibilitam comparar muitas pessoas, mas captam pouco dos incômodos, hesitações e tentativas de agradar ao entrevistador. No projeto, as respostas de deputados e cidadãos se aproximaram quando as perguntas tratavam de princípios amplamente aceitos, como igualdade perante a lei e liberdade de imprensa. A distância aumentou quando os itens exigiam compromissos concretos com limites ao poder e responsabilização do governo.
Entre os deputados que responderam a essas questões específicas, a proporção dos que atribuíram importância máxima à liberdade de oposição foi 10,2 pontos percentuais maior do que entre os cidadãos ouvidos. Em relação às eleições livres e justas, a diferença foi de 7,9 pontos. Já em temas que limitam diretamente a atuação dos governantes, o movimento se inverteu. A parcela da população que deu nota máxima à possibilidade de os tribunais impedirem ações ilegais do governo superou a dos parlamentares em 12,5 pontos percentuais. A maior distância apareceu em relação à ideia de que os eleitores devem punir governos que atuam contra seus interesses, com 32,2 pontos percentuais a mais entre os cidadãos.
O projeto deverá ser complementado por entrevistas em profundidade com um grupo menor de deputados, pelas quais será possível registrar também reações (sinais e gestos que demonstram hesitação, recuo ou entusiasmo na resposta) e contexto (justificativas, ressalvas e exemplos que o entrevistado dá para explicar seu raciocínio).
Diplomacia na abordagem
Se os corredores ajudam a chegar aos parlamentares, outras elites demandam chaves de entrada diferentes. A cientista social Fábia Berlatto não conseguiu entrevistar secretários estaduais de segurança pública em sua pesquisa de doutorado, apesar de ter buscado contatos institucionais e pessoais. Ela atribui as recusas ao caráter fechado das corporações policiais e à desconfiança em relação a pesquisadores que analisam temas como violência institucional, direitos humanos e abuso de poder. Já os colegas que pertenciam às forças de segurança tiveram mais facilidade. “Quando a pesquisa parte de um agente interno, o acesso é maior”, afirma.
A experiência foi diferente em estudos sobre diplomatas conduzidos pela cientista social Karla Gobo, sócia de Berlatto na consultoria Múnus Social Data. Durante o doutorado, em 2014, Gobo aplicou um questionário respondido por 218 diplomatas e realizou entrevistas em profundidade. Os aposentados se mostraram mais acessíveis do que os profissionais na ativa, que temiam ser identificados e sofrer retaliações.
Mesmo informados de que os resultados seriam apresentados de forma agregada, alguns condicionaram a participação à retirada de perguntas sobre gênero ou ano de ingresso na carreira.
Em um estudo mais recente, “Perfil sociográfico e estudo de carreira da diplomacia brasileira”, de 2022, encomendado pela Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB), a adesão mais do que dobrou. O levantamento por questionário reuniu 597 diplomatas da ativa, além de 101 aposentados e 713 aspirantes à carreira. Segundo as pesquisadoras, o respaldo da entidade aumentou a confiança, e os participantes reconheceram na investigação um interesse corporativo.
Os resultados expuseram um descontentamento generalizado, indicando que 78% dos diplomatas da ativa estavam insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o sistema de promoções do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Entre as mulheres, o percentual chegou a 83% e, entre as pessoas negras, a 84%. Além disso, 92% dos respondentes discordaram de que o órgão tenha critérios claros de promoção e remoção, enquanto 79% consideraram o sistema mais personalista do que meritocrático. “Eles descreveram as próprias carreiras de uma forma que seria impensável em outra situação de pesquisa”, conta Berlatto.
O interesse de quem é convidado a participar, portanto, também molda a amostra. Pessoas mais insatisfeitas podem responder em maior número porque enxergam uma oportunidade de tornar visíveis suas críticas. Cabe aos pesquisadores explicitar esse possível viés ao apresentar os resultados.
Outras informações que podem ficar fora de alcance são as contidas em documentos mantidos por órgãos públicos. Para reconstruir a trajetória profissional dos diplomatas, por exemplo, a equipe solicitou ao MRE, por meio da Lei de Acesso à Informação, os currículos armazenados no sistema interno do órgão. Como o Itamaraty considera esses documentos informações sensíveis, as pesquisadoras recorreram a uma consultoria jurídica para fundamentar o pedido — o que não deu resultado. O acesso só foi concedido mediante autorização individual de cada diplomata. De um universo de cerca de 1.500 profissionais, elas conseguiram consultar aproximadamente metade dos currículos.
Berlatto e Gobo trabalham atualmente em um survey (pesquisa de levantamento) sobre como diferentes elites — política, econômica, militar, acadêmica e da mídia — percebem a política externa brasileira. Após sucessivas solicitações com baixo retorno, incluíram telefonemas para reforçar o convite. A iniciativa atraiu os diplomatas, que têm, por profissão, mais interesse no assunto. Para alcançar os demais grupos, foi preciso contratar auxiliares que já tinham experiência prévia com cada um dos perfis de elite para intensificar abordagens via telefone, WhatsApp e e-mail.
A experiência anterior de Berlatto como professora no Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), rede de escolas vinculadas ao Exército, facilitou a circulação do questionário entre militares, já que os contatos conhecidos o encaminharam a outras pessoas, em uma técnica de recrutamento em cadeia. Ainda assim, entre os grupos abordados, o dos militares foi o que menos respondeu.
A ordem em que as perguntas são apresentadas também importa. As questões relativas ao Oriente Médio, por exemplo, foram deixadas para o fim. “Assim, se o participante abandonasse o levantamento diante de um tema sensível, boa parte já estaria preenchida. O mesmo cuidado foi adotado com perguntas para inferir o posicionamento político do entrevistado”, explica Gobo. Segundo Berlatto, a condução da entrevista também varia conforme o interlocutor. Alguns gostam de assumir o papel de especialistas diante de um pesquisador que demonstra saber pouco; outros se envolvem mais quando percebem uma conversa entre pessoas familiarizadas com o assunto.
Redes de acesso em zona de conflito
No exterior, distâncias geográficas, diferenças culturais e conflitos armados acrescentam novas camadas ao problema. Nasser orienta o doutorado de Karime Ahmad Borraschi Cheaito, autora da pesquisa “Diplomacia e legitimidade: as articulações internacionais do Hezbollah (2006-2024)”, apoiada pela FAPESP. O trabalho investiga como o partido político e grupo armado libanês constrói relações com atores estatais e não estatais, partindo da hipótese de que o uso da força é insuficiente para garantir a sobrevivência da organização, que também busca legitimidade perante públicos externos.
O projeto combina documentos, discursos, reportagens e bibliografia especializada com entrevistas qualitativas no Líbano. Cheaito iniciou em agosto um estágio de pesquisa na Universidade Paris-Dauphine, sob supervisão da cientista política franco-libanesa Aurélie Daher, e pretende usar as redes acadêmicas da pesquisadora para chegar a representantes de diferentes forças políticas libanesas e, se possível, a integrantes da organização. O conflito entre Israel e o Hezbollah, no entanto, poderá levar as conversas para o ambiente on-line e restringir o acesso a setores mais estratégicos do grupo.
Nesse campo, apresentar-se como pesquisadora pode facilitar contatos, mas não elimina suspeitas. Uma entrevistadora pode ser percebida como simpatizante do Hezbollah por seus opositores ou como ligada aos adversários pela organização. Para evitar tomar partido já na formulação do problema, a equipe emprega a categoria “ator não estatal armado”. “Ela não pode demonstrar nem simpatia nem repulsa, está ali como pesquisadora”, explica Nasser.
Quando uma fonte aceita falar, seu depoimento não é tratado como descrição verdadeira dos fatos, e sim como uma percepção situada, permeada por interesses e posições políticas. As informações são contextualizadas e comparadas com documentos, bibliografia e outras entrevistas. Às vezes, uma fala fornece pistas para um aspecto pouco conhecido; o pesquisador, então, procura evidências adicionais para confirmar ou contestar a hipótese. Quando o entrevistado impõe anonimato, o conteúdo pode integrar a análise sem que sua identidade seja divulgada.
Não há, portanto, uma fórmula única para pesquisar quem concentra poder e controla o acesso a si mesmo. Empresas especializadas, abordagens presenciais, respaldo de associações, contatos internos, redes acadêmicas, anonimato, repetição de convites e cruzamento de fontes respondem a obstáculos diferentes. Mesmo assim, as ausências permanecem e precisam aparecer nos resultados. Estudar as elites implica tentar superar as barreiras de acesso a quem se quer entrevistar, compreender quem aceita falar — e em que condições — e quais limites as recusas impõem às conclusões.
Estratégias de convencimento testadas para aumentar a adesão de alguns grupos a pesquisas
1. Indicação por pessoas de confiança
Recorrer a contatos que tenham credibilidade junto ao grupo-alvo, já que a recomendação de alguém conhecido reduz a desconfiança
2. Agentes internos
Convidar para conduzir a pesquisa pessoas que integram o grupo ou instituição-alvo ou que já pertenceram a eles e que, portanto, conhecem seus códigos, têm contatos e não enfrentam barreiras de acesso
3. Garantia de anonimato
Explicar como a identidade de quem responde será protegida e garantir o sigilo das respostas ajuda a reduzir o receio de exposição e de retaliações profissionais
4. Respaldo institucional
Conquistar o apoio de uma entidade reconhecida pelo grupo aumenta a confiança, legitima a pesquisa e mostra aos convidados que os resultados podem atender a interesses coletivos
5. Envio de questionário e contato por telefone
Encaminhar o questionário por e-mail, mais de uma vez, se necessário, reforçando por telefone o convite para participação. É também uma oportunidade para esclarecer dúvidas e ressaltar a importância da pesquisa
6. Redes acadêmicas
Promover parcerias entre pesquisadores e entidades ajuda a localizar os interlocutores certos para fazer a ponte com as fontes, sobretudo na investigação de elites internacionais
7. Agendamento
No caso de parlamentares, um caminho é contatar previamente gabinetes e assessorias para encontrar horários possíveis na agenda e convencê-los da importância de participar
8. Abordagem direta
Outra rota é abordar os deputados pessoalmente nos corredores do Congresso, aproveitando os intervalos entre os compromissos para aplicar o questionário
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Fonte: Agência FAPESP.
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